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Nacionalista AUGUSTO KIALA BENGUI :” Fui puro maestro do 4 de Fevereiro, mas continuam a esconder até hoje”

Publicado por Muana Damba activado 6 Febrero 2020, 09:25am

Nacionalista AUGUSTO KIALA BENGUI :” Fui puro maestro do 4 de Fevereiro, mas continuam a esconder até hoje”

Por Salas Neto

 

Augusto Kiala Bengui conta que, afinal, houve duas investidas em dias diferentes dos nacionalistas angolanos contra as cadeias portuguesas. A primeira, a 4 de Fevereiro, comandada por si, como insiste, não fora tão sangrenta como se pensa, pois resultou em apenas duas baixas do lado dos patriotas, em dois ataques efectuados na que é hoje a «Rádio Patrulha» e na cadeia de São Paulo. Segundo ele, no total, os colonos tiveram oito baixas.

 

Afirma ainda que, ao contrário do que se diz, Neves Bendinha não pertencia à nenhuma das estruturas do comando, no qual ele tinha Raul Duião, Virgílio Sotto-Mayor e Paiva Domingos da Silva como colaboradores directos. Mesmo Imperial Santana também não pertencia à chefia. Contudo, diz que se lembra de Neves Bendinha, pois fora a ele a quem recaíra a missão de ler o «capítulo 20» sobre a lei da guerra de um livro bíblico (Deutorónio), um recurso a que se lançara mão para se transmitir fé e coragem aos patriotas preparados para os ataques às cadeias coloniais na madrugada daquele dia.

 

Interrogado sobre se participara no ataque às cadeias nesse dia, Augusto Kiala Bengui confessa que não, já que comandava as operações na rectaguarda, a partir do Cazenga, mas defende que o seu papel importante na gesta não pode ser esbatido por isso, até porque sempre foi tido pelas autoridades coloniais (diz que está registado) como o verdadeiro mentor e maestro do «4 de Fevereiro».

 

Já a segunda investida, empreendida à sua revelia, a 11 de Fevereiro, como diz, sob chefia de Raul Duião e provavelmente de Neves Bendinha, seria desastrosa para as hostes dos nacionalistas, pois morreriam muitos jovens, alguns deles feitos pura «carne para canhão», devido ao atabalhoamento que norteou a sua preparação.

 

Augusto Kiala Bengui diz que a autoria do «4 de Fevereiro» não se pode atribuir em termos absolutos nem ao MPLA nem à UPA, pois os ataques às cadeias foram essencialmente resultado da «saturação do povo angolano» diante do sofrimento a que era votado pelos colonialistas portugueses. Para ele, é provável que tanto um como outro pudesse ter nas hostes dos nacionalistas que se preparavam para a luta armada elementos influenciados pelos respectivos ideais partidários, mas esta influência não foi determinante de modo algum. «Aliás, naquela altura, não havia divisão de ideologias entre nós, os nacionalistas.

 

O mais importante era iniciar a luta armada pela independência e era isto que nos animava. O fundamental era atacar¬mos o colono e foi isso o que fizemos», diz o «mais-velho», reconhecendo, todavia, que o nome da UPA era de facto o mais evocado, não propriamente como o de alguma estrutura partidária que mexia os cordelinhos a partir do outro lado da fronteira, mas como expressão idiomática incentivadora para a revolta, a que estava mais presente nos panfletos que os activistas da mobilização popular espalhavam pelos bairros de Luanda.

 

O velho nacionalista nega que o cónego Manuel das Neves tenha tido o papel de figura central do «4 de Feverei¬ro», tal como lhe é atribuído por alguns investigadores, já que, como afirma, ele actuava apenas como «conselheiro» dos patriotas embrenhados na preparação dos ataques. Nega também que tenha sido ele quem se encarregara da armazenagem e distribuição das catanas utilizadas nesses ataques. «Era eu quem ‘baptizava’ as catanas», garante.

 

Minimiza também a influência de fora na preparação dos ataques, nomeadamente por via de instruções regulares emanadas a partir do Congo Belga, por nacionalistas angolanos lá baseados, como se vem propalando por certos investigadores e historiadores. Augusto Kiala Bengui diz que não houve nada disso, pois apenas se lembra de um fugaz encontro com Mário Pinto de Andrade, em Matadi, onde ele se encontrava a participar duma conferência internacional promovida pelo partido de Patrice Lumumba.

 

«Na verdade, eu é que fui o comandante e o maestro do ‘4 de Fevereiro’, mas continuo escondido até hoje», lamenta o velho nacionalista.

 

Preso a 31 de Maio de 1961. TRAÍDO PELA ESPOSA DUM COMPANHEIRO

 

Tendo conseguido escapar das primeiras prisões em massa que se fizeram após os ataques de 4 e 11 de Fevereiro (e ainda do 15 de Março), Augusto Kiala Bengui garante que se tornaria no nacionalista angolano mais procurado pelas autoridades coloniais, tendo sido preso a 31 de Maio de 1961, no Sambizanga, após ser supostamente entregue pela esposa de um seu companheiro, a quem identificou por João Bento, que já se encontrava nos calabouços nessa altura.

 

Ele se tinha posto nas matas, a caminho de Nambuangongo, zona que servia de trampolim para se chegar ao Congo, onde estava estabelecida a rectaguarda dos nacionalistas angolanos então já em luta aberta contra o colono português, mas a enorme agitação criada no eixo Luanda/ Cuanza Norte/Uíge, com a revolta do «15 de Março», obrigou¬-o a recuar, junto com alguns outros companheiros do «4 de Fevereiro».

 

Baseou-se então na Barra do Dande, donde fazia algumas incursões clandestinas pelo Sambizanga e por outros musseques de Luanda. As autoridades coloniais estavam de atalaia e, à mínima informação da sua presença, desencadeavam buscas que, contudo, se revelavam infrutíferas, algumas vezes, por pura sorte.

 

Na sua busca por informações sobre a sorte dos seus companheiros detidos e sobre a evolução da luta, teve alguns contactos com a esposa de um deles (João Bento), que se revelariam fatais poucas semanas mais tarde. Alertados, os colonos tugas montaram um engodo: a senhora, disfarçada, viajaria no mesmo autocarro que Augusto Kiala Bengui apanhava para chegar ao Sambizanga desde a Barra do Dande, com a missão de dar aos «pides» um sinal específico da sua presença assim que tal acontecesse. O «mais-velho» diz que só desconfiou de que algo de anormal se passava em relação a si num dia desses, quando, já à chegada, descobriu que a «bessangana» sentada no autocarro mesmo ao seu lado era, afinal, a esposa do companheiro João Bento.

 

E, na madrugada do dia seguinte, o Sambizanga seria sacudido por um forte contingente policial, reforçado por efectivos do exército colonial, equipados com blindados e tudo, mobilizados para a caça ao «comandante» dos assaltos às cadeias que abalaram o regime, como era rotulado pelos colonos. Caçado finalmente, «mamaria» cinco anos de cadeia, sendo libertado em 1966, sob condições. Ficaria em liberdade limitada (próxima da prisão domiciliária) com emprego numa secção especial da Diamang, antes de voltar a ser preso alguns anos mais tarde, por participação na luta clandestina.

 

Diz que fez parte de um denominado «Comité Regional», uma espécie de mega-célula ou um conjunto considerável de núcleos de acção, que era integrado por nacionalistas de várias colorações partidárias, em que se destacava Vicente Pinto de Andrade, de quem se faria grande amigo (hoje são compadres) durante a «prisa» na Cadeia de São Paulo, no que seria a sua segunda privação de liberdade. Conta que nessa altura as clivagens entre o MPLA e a UPA (ainda não se falava da UNITA), ao menos ao nível da luta clandestina em Luanda, eram inexistentes, algo que só viria a ser quebrado com o massacre de guerrilheiros do movimento de Agostinho Neto por forças de Holden Roberto, no Kinkuzo (Zaíre), em 1967.

 

O velho nacionalista acredita que, na sua primeira prisão, serviu de «moeda de troca» com o companheiro João Bento, já que este seria devolvido à liberdade uma semana depois dele ter sido apanhado.

 

A «dipanda» era o principal objectivo da sua luta. SONHO REALIZADO, MAS…

 

Augusto Kiala Bengui diz que se sente satisfeito por ter contribuído na luta pela independência do país, algo que era, aliás, o seu principal sonho quando se decidiu a envolver-se nesta causa, por influência de um antigo soldado angolano que combateu pelo exército colonial em Macau, na década de 50, a quem identifica como sendo Panzo Bengui, seu parente. «Posso dizer que era meu sobrinho. Éramos crianças, quando ele começou a nos incutir os ideais pela liberdade», conta o velho nacionalista. O seu mentor político acabaria por ser um dos comandantes do «15 de Março» e posteriormente se tornaria numa das figuras de proa das estruturas militares da UPA. Desconhece o seu paradeiro actual, mas acredita que já terá falecido.

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