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Portal da Damba e da História do Kongo

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Um “cheirinho” sobre a minha vida no Seminário…

Publicado por Muana Damba activado 5 Septiembre 2018, 18:28pm

Etiquetas: #Coisas e gentes da Damba

Um “cheirinho” sobre a minha vida no Seminário…

 

Por Miguel Kiame


Registo com muita saudade a Sala Magna do Seminário Seráfico Capuchinho de Cangola. Como o próprio nome sugere, era uma sala majestosa, onde cada um tinha a sua escrivaninha com gavetas para guardar livros e outros materiais escolares. Era o local privilegiado para o estudo e leitura. Por dia, tínhamos cerca de duas horas de estudo. Era também a sala onde cultivávamos o ouvido musical. Escutava-se a boa música, enquanto se estudava. Foi aí que começamos a apreciar os grandes clássicos da música, a saber, Beethoven, Mozart, Bach e outros. Lembro-me também das músicas de Duo Ouro Negro, Giani Morandi, Christopher, os Beatles, etc. Claro que a música gregoriana, embora fazendo parte do nosso ofício, mereceu, por essa razão, um destaque dada a sua beleza divinal. Como referiu um expert em matéria musical, “o ouvido não é um órgão passivo mas um instrumento activo de contacto humano profundo. É pondo o ouvido à escuta que o sentido da audição transporta o ser interior expresso pela voz de outra pessoa para o mundo do ouvinte”. A música jogou e ainda joga para mim um papel importante. Acrescenta para a minha vida uma percepção inesgotável de valores, de estados de espírito e das mais vastas motivações em que o meu ego se comporta como a cicatriz que cobre essa ferida em que a realidade tão diversas vezes se torna.

A sala magna foi o local onde forjei os alicerces daquilo que sou hoje como homem. A sala magna era também o local onde se realizavam as reuniões mensais e se anunciavam as grandes decisões. Era a sala de estudo, por excelência. Grande, para fazer jus a “magna”, imponente e respeitável. Quando se entrasse nela, tudo quanto não fosse o contacto com a criação de novos conhecimentos, sistematização de outros já adquiridos, ficava na porta de entrada. Essa sala transbordava uma ambiência transfigurante.

A forma de organização a que estávamos votados, obrigava a que a maioria transitasse de classe. Só mesmo, os menos dotados e preguiçosos, os designados “obtusos de mente” saboreavam o amargor da reprovação. Foi nesse clima imbuído de muita religiosidade, disciplina e franca camaradagem que, com naturalidade, fiz o 2º ano de Liceu. A passagem para o 3º ano, significava a transferência para o Seminário Seráfico “S. Paulo, Apóstolo” em Luanda, em superfície territorial contíguo à Igreja de Nossa Senhora de Fátima e da Escola missionária de S. Domingos.

Luanda para muitos de nós, estava rodeada de muitos mistérios que importava desvendar, partindo do próprio conceito de grande cidade, prédios, mar, grande movimentação de carros, ruas, gente extrovertida, etc. Contudo, na preparação da viagem para Luanda, uma das dificuldades que se colocou, no meu caso, foi a falta de transporte que me levasse até à capital. O transporte para Luanda deixou de ser responsabilidade dos padres, como acontecia com o Seminário de Cangola, para ser uma responsabilidade individual. Depois de muitos contactos, finalmente, conseguiu-se mobilizar uma boleia no camião do Sr. Fábio. Saímos da Damba, num belo e inesquecível dia, por volta das onze horas. Da viagem ainda retenho umas lembranças, embora difusas. A marcha era muito lenta e requeria muita paciência. O melhor que conseguimos fazer, no primeiro dia, foi alcançar a vila de Camabatela a muito custo tendo em atenção as contrariedades do piso de terra batida e do clima do planalto de Camabatela: frio a valer e um nevoeiro bastante cerrado. Paramos junto de um restaurante, onde o Sr. Fábio se dirigiu para comer qualquer coisa. Eu continuei na cabine a fazer contas a vida relativamente ao frio e à fome que já estava a apertar. Quando menos esperei, o Sr. Fábio abriu a porta do carro e me entregou um prego no pão e uma gasosa! A oferta surpreendeu-me imenso, tendo feito, em jeito de agradecimento, uma vénia a medida da satisfação que a merendinha me provocara. Por instantes esqueci-me do frio e não regateei um segundo sequer quando recebi o convite expresso de me ajeitar num dos cantinhos da carga para descansar um pouco. Beneficiei da solidariedade do ajudante do camião que me dispôs um lugar onde pudesse ajeitar a ossada. A noite estava completamente gelada, a escuridão da noite ainda mais adensada pelo cinzento do nevoeiro. Dir-se-ia, a bom rigor, que a noite estava negra como o breu e propensa à exasperação da minha imaginação que criava figuras e silhuetas que assumiam variadas formas medonhas. Foram horas intermináveis de suplício até que o corpo se rendeu ao cansaço e adormeci, intermitentemente, porque a falta de agasalho adequado não afastava o desconforto do frio, sempre presente. Foi assim madrugada adentro até que por volta das quatro da manhã soou o toque para a retomada da viagem e do meu confortável lugar, na cabine.

Contrariamente ao que tudo levava a crer, a viagem não produziu elementos que arrebatassem o meu entusiasmo, perante a forma taciturna e muito séria do Sr. Fábio que dificilmente esboçava um sorriso. Eu ficava no meu cantinho, com muito respeitinho, sem palavras nem conversa. Respondia da forma mais lacónica possível, algumas inquietações e, logo de seguida, voltávamos ao ambiente normal da nossa viagem, revestida de palidez e de um silêncio sacrossanto. Se ele era taciturno eu era calado e demasiadamente introvertido. Ninguém se podia queixar do outro em matéria de conversa fluida. Andamos todo o dia e, no final da tarde, fizemos a entrada tão aguardada a cidade de Luanda. A primeira impressão é que era tudo mais rápido, o movimento bastante frenético, exigindo um cuidado redobrado para andar e atravessar as ruas. Na impossibilidade de me deixar a porta do Seminário, Sr. Fábio encontrou o melhor local onde pudesse andar sem constrangimentos e chegar ao local aprazado. Fiquei frente a Macambira e apontou-me a torre da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e disse:

- Repare naquela Igreja. Estás a ver aquela torre bem alta? Siga direitinho até lá e de certeza que vais encontrar um padre ou outra pessoa qualquer. Não te amedrontes e pergunte a quem esteja aí nas imediações da Igreja e, certamente, dar-te-á a informação que precisas para entrares no seminário. Desejo-te bons estudos e até breve.
- Muito obrigado por tudo, Sr. Fábio.

Respondi, surpreso, com a forma tão carinhosa como a nossa companhia se estava a desfazer. Nunca coloquei em dúvida a humanidade do Sr. Fábio que não só me deu boleia como me alimentou, ao longo da viagem, tratando-me sempre com deferência. Posteriormente, depois de feito homem, conversei com ele várias vezes, referindo-me dessa boleia mas o nosso mais velho sempre recusou ter feito algo de substancial. 

- Fi-lo porque era minha obrigação moral fazê-lo e nós somos todos Família.

É verdade somos Família, essa é a realidade africana que infelizmente se começa a desenraizar. Toda a vez que me lembro do Sr. Fábio a imagem emblemática que guardo dele é aquela doce face de homem muito sereno e muito educado. 
Depois de estarmos os dois fora da viatura, deu-me um forte abraço, recomendando, finalmente:

- Vai que eu fico a olhar e a espera que chegues ao seminário. E não te esqueças que vieste a Luanda para estudar. Veja lá!

- Sim, Sr. Fábio e, mais uma vez, muito obrigado.
Cheguei, por volta das 18h30 horas e mal me aproximei da Igreja, deparei com um colega que imediatamente me abraçou. Então, virei-me para o camião, fiz o sinal que ele correspondeu e só assim se foi embora.
- Sr. Fábio, obrigado, pela boleia, pelo teu carinho. Sr. Fábio, descanse em Paz!

O seminário de Luanda era, por questões mais que evidentes, melhor do que o de Cangola. À partida, a integração não era problemática porque Luanda era o reencontro com muitos velhos amigos e conhecidos. A disciplina não era tão apertada como a de Cangola. Já nos sentíamos mais adultos e mais responsáveis de muitas coisas que em Cangola estavam irremediavelmente sob a tutela do reitor. A rotina era praticamente a mesma. Uma diferença gritante era a qualidade das aulas de língua portuguesa. O rigor era a tónica dominante. Havia preocupação em tudo: na pronúncia, na cadência, na ligação das palavras, no abrir e fechar as sílabas, enfim, tínhamos que cultivar a retórica, tínhamos que ser bons falantes. Na actividade missionária para a qual estávamos a ser preparados, a comunicação é fundamental, dominar a técnica para a sua utilização adequada era básico. Portanto, quanto mais eloquente se fosse, melhores seriam as probabilidades de convencimento do auditório. Imagine-se qual era a importância dada a língua portuguesa.

$Tínhamos professores para todos os gostos e feitios mas o mais carismático, problemático e temido era o Zeté. A alcunha dada pelos seminaristas, deriva da maneira como ele pronunciava a forma verbal “j’etais”, em francês. Não se podia ter problemas com ele, porque o padre-professor-cientista era titular de muitas disciplinas: Física, Química, Biologia, Mineralogia, Francês e Inglês. Era um apaixonado pela ciência. A vida dele resumia-se praticamente no convívio com os bichinhos, plantas e minerais que tinha no Laboratório. Entrava de manhã e só saía a noitinha. Os alunos entravam e saíam e ele sempre na sua cátedra. Era um italiano cuja estrutura física parecia mais de um germânico, muito objectivo e seco, no seu trato. Quando estivesse bem-disposto, esboçava umas truculentas gargalhadas, de uma voz assumidamente gutural, que dificilmente deixavam alguém indiferente. O contágio era automático e a turma ria-se também. A impressão que produzia era de que o Zeté, nunca esvaziava completamente o conteúdo das suas emoções, porque a duração era muito ténue e ficava logo sério, como se nada tivesse acontecido. Nunca permitia que os momentos de boa-disposição ganhassem laivos eufóricos. Eram simplesmente abruptos e ponto final. Nos primeiros tempos, eu pensava que aquelas mudanças bruscas do seu estado de espírito fossem resultado de alguma insanidade mental. A par disto, Zeté era igualmente famoso pelo seu carácter de imprevisibilidade. As datas de avaliação nunca eram anunciadas. Tínhamos que estar sempre prontos e disponíveis para as provas escritas e orais. Eram provas do tipo telegráfico, dado o alto nível lacónico das questões, as respostas envolvidas bem como o tempo disponível para respondê-las. Eram aplicadas ou no início das aulas ou cinco a dez minutos antes da aula terminar. 

- Eh na pa! Temos prova e não precisa abrir livro ou caderno nenhum. 
Com a devida antecedência, já havia colocado em cada carteira a folhinha para as respostas e dizia:

- Escrevam o nome e respondam: Qual é a fórmula do ácido sulfúrico? Têm dois minutos que já estão a contar. 
Terminados os dois minutos mandava levantar todos e largar as canetas.

- Eh na pá, caramba, terminou, levantem-se e larguem as canetas.
Quem não cumprisse religiosamente com a instrução era-lhe imediatamente sentenciado o resultado da prova: Zero!

As provas orais eram quase sempre irrigadas da boa disposição matinal. Ele, pelo menos, tentava despir-se daquele ar germânico pesado e impessoal para se parecer mais afável e expansivo como os raios solares de uma bela manhã luandense. Ligava a música e dizia:

- Pode ser que inspire alguém, caramba! Quem teve nota baixa na última avaliação tem a possibilidade de se redimir, caramba. 

E começava a chamada:

- Agostinho Valentino,

- Sr. Padre,

- Enuncie a tabela dos minerais de acordo com a sua dureza. 

E prosseguia: 

- Eh na pa, caramba, estava a pensar no seguinte: 

Tem Graça Caçar Feras Antes O Que Tem Cabeça Dura. 

Sem o aluno se aperceber, o Zeté estava a dar pistas para a solução da questão com as iniciais dos elementos minerais componentes da tabela: Talco, Gesso, Cálcio, Fluorite, Aparito, Ortóclase, Quartzo, Topázio, Corindo e Diamante.

De acordo com o teor da resposta que o Valentim desse, (a quem ele chamava de Valentino) o padre dizia alto e em bom som: Vinte! ou então Zero!

Os estudos no seminário de Luanda abriram precocemente em alguns de nós a sede pelo conhecimento de alguns rudimentos da Filosofia e da Retórica. Então, fomos ter com um colega mais velho, finalista de Filosofia, que dava pelo nome de Ti Zé. Era o protótipo de pessoa a quem se podia designar de “fidalgo”. Preocupava-se sobremaneira com a sua postura bastante finória e altiva, com a maneira de falar, de recriar o verbo com o recurso de todos os seus instrumentos e ingredientes, a saber: pronúncia clara, abrindo e fechando adequadamente as palavras, entonação da voz a altura da circunstância, linguagem erudita retocada com figuras de estilo e efeitos linguísticos e articulada com fundamentos e princípios filosóficos que garantiam a argumentação muitas vezes falaciosa e sofista mas quase sempre vitoriosa. Dizia-se, na época, que Ti Zé era muito “estiloso”. Contrariamente ao que é comum a este tipo de pessoas, Ti Zé não era arrogante, dava-se bem com todos, de forma especial, nós os mais pequenos, seus incondicionais fãs. Frequentemente ia-nos passando alguns vocábulos pouco comuns na linguagem popular e instruía-nos como e quando usá-los. O interesse que fomos manifestando por aquele que naturalmente se tornou nosso “ídolo” foi tal que chegamos a propor-lhe algumas aulas de filosofia ao que ele prontamente anuiu. Estudar Filosofia para nós era coisa de outro mundo, por isso, o interesse era descomedido. 

As nossas aulas começaram com a definição do conceito de Filosofia e como era da praxe, na época, em latim. E assim começava nosso ilustre mestre: 

“Philosophia sciencia omnium rerum, per causas ultimas naturalis rationis lumine comparata.”

 

Os pormenores dos contornos exactos da definição do conceito de Filosofia tal qual Aristóteles a enunciara já andam esfumados das névoas do tempo e, evidentemente, da minha memória. Admito que a transcrição acima dessa definição comporte erros não só de sintaxe mas também de eventual omissão de conteúdo. Quem estudou latim sabe bem de que nível de complexidade é a estrutura da língua dos romanos. As aulas desenrolavam-se num clima de franco entusiamo e contribuíram decisivamente na transição daquilo que se pode chamar de fase de frivolidade provinciana, trazida de Cangola, para a etapa de esforços ansiosos por arrecadar o maior caudal possível de conhecimentos gerais e da afinação de uma verbosidade indomável, como nosso mestre. Tudo o que sou em domínio da língua portuguesa começou a desenhar-se e a estruturar-se nessa etapa e o Ti Zé, jogou um papel preponderante. Consolidei o gosto pela leitura, pela escuta atenta dos colegas, padres bem-falantes da língua de Camões, pelo exercício de elaboração de textos poéticos, etc. Como já referi bastas vezes, o ambiente que nos rodeava era fantástico, os professores estavam a medida das encomendas, por isso, a aprendizagem estava condenada a ser profícua. Naquele tempo, era sobejamente sabido e comentado que a maioria dos seminaristas que fosse realizar provas de exame nos Liceus, passava, quase sempre, com distinção. Não é, pois, sem razão que o período durante o qual passei pelo seminário ficou vinculado à nostalgia dos anos mais felizes no estádio de transição da minha adolescência para a juventude. Infelizmente, Ti Zé, permaneceu pouco tempo connosco porque teve de abraçar outra forma de estar na vida. Abandonou o Seminário e com esse abandono deu-se por terminado o nosso ciclo intensivo de estudos filosóficos, à boa maneira do nosso filósofo, mestre em oratória, qual Demóstenes, da Grécia antiga.

 

 

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