Na Europa, tanto quanto se sabe, existe uma paixão, cimentada em séculos, em torno dos produtos regionais, pertençam eles à gastronomia, ao artesanato, ao vestuário ou ao qualquer outro domínio da vida real. Confesso que tive sempre um fascínio brutal por esse modo de se valorizar as particularidades dos lugares, que lhes adensam a singularidade e potenciam a atractividade turística. A política, que tem por vezes o condão de estragar o que é naturalmente perfeito, foi muitas vezes responsável por dar um rumo perverso a essas diferenças regionais, fomentando conflitos inexistentes em busca da fragilização de alas para ser mais fácil a manipulação das mentes.

África, onde a ignorância abunda e o chico-espertismo se reproduz como algas em remanso pantanoso, anda cheia de exemplos dramáticos do uso indevido das particularidades dos lugares para atirar uns contra outros. Invisto anos largos da minha vida a dizer bem do que existe de extraordinário nos lugares que me servem de poiso, primeiro o Tomessa onde nasci e vivi até à adolescência, depois o Uíge como espaço-mãe e, mais tarde, Luanda e Cuba que me recebeu por quase uma década generosa.

Torno-me por isso, e sem qualquer premeditação, numa espécie de divulgador não nomeado das bondades e valores icónicos de tais mundos, com os quais acabo sempre por estabelecer laços de empatia e afecto que se consolidam à medida que o tempo avança. Todos os que me seguem pelas redes sociais, sobretudo no Facebook nestes últimos sete anos, terão testemunhado o modo empolgado como mostro o que existe de particular no Uíge, com o propósito explícito de deixar claro que o regionalismo positivo vale a pena, anima os lugares e os seus habitantes, que são subtilmente empurrados para um estatuto de melhor aceitação do seu eu.

Dito de outro modo, nada do que acontece em sede do ciberespaço, vindo de mim, contém inocência no sentido de que se possa ver como um esforço retrógrado, ingénuo e perverso de se exaltar sentimentos de uns lugares contra outros. Na verdade, e como o notam frequentemente aqueles que captam o sentido da coisa, o fim último da ideia de se dizer bem dos lugares e suas bondades singulares é que se multipliquem nas pessoas os apegos aos territórios de que são originários, por forma a que – como o referira certa vez esse exemplo de cidadã comprometida que é Luísa Fançony – não falte a cada angolano “o seu Tomessa, no sentido do alfobre de uma personalidade que receba e interprete os fenómenos da sua terra e que os reinvente nos rituais da vida, casamento, nascimento dos filhos, recepção do diploma universitário, etc.”.

Por estes dias, a consagração desse percurso meu com décadas de registo ficou materializada por via da chegada ao circuito da grande distribuição comercial de dois produtos emblemáticos ligados à imagem do que se faz na terra onde nasci: o maracujá gigante e o cesto-mochila muito utilizado nos municípios nortenhos da província do Uíge, Quimbele e Maquela do Zombo, ali conhecido, mais fonética menos fonética, como “muyenda”.

Foi como a chegada à foz da correnteza que se esgueirou por vales e planícies, driblando obstáculos e barreiras de natureza diversa, encontrando o podium no abraço das águas doces com as ondas salgadas do imenso oceano. E foi assim que nos tornámos todos mais conhecedores, alegrando- se a vasta tribo dos que amam conscientemente o seu país, Angola, que pode hoje, com o sossego conquistado, mostrar a imensidão dos seus recursos, os que a terra fecunda acolhe no seu seio e os que nos foram legados pela arte secular dos homens e mulheres de quem orgulhosamente descendemos!