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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Bispo Afonso Nunes a favor de diálogo inter-religioso

Publicado por Muana Damba activado 23 Abril 2015, 03:31am

Etiquetas: #Religião, #Coisas e gentes da Damba

FOTO: HENRI CELSO

FOTO: HENRI CELSO

Por Diogo Fernandes

Luanda - Nos destinos da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo desde 2000, o Bispo Afonso Nunes (AN) é a figura central dos ?homens de branco?. Em entrevista à Angop, o líder religioso aponta soluções para evitar as acções do fundamentalismo islâmico em Angola, demonstra indignação ao aborto e à homossexualidade, assim como garante também que a relação entre a sua igreja e o Governo não envolve dinheiro.

ANGOP: Que avaliação faz do desempenho da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, do ponto de vista religioso e social?

Afonso Nunes (AN) - Hoje, podemos dizer que, embora com dificuldades, a igreja está a caminhar. Temos resolvido projectos na área da educação, mais concretamente no ensino de base e no médio, onde operamos há oito anos, e, por intermédio do Complexo Escolar Simão Gonçalves Toco, formamos mais de três mil alunos.

Há cerca de dois anos resolvemos dar mais um passo na área da formação, investindo num instituto superior. A ideia é facilitar o acesso à formação superior dos alunos formados pelas nossas escolas dos ensinos básico e médio.

ANGOP: O que levou ao adiamento da abertura do Instituto Superior Politécnico Tocoísta?

AN - Preferimos adiar para o próximo ano a abertura do instituto por razões inerentes à funcionalidade enquanto instituição de formação que pretende preservar princípios como a qualidade. Estamos a levar em consideração, como não podia deixar de ser, os conselhos do ministro do Ensino Superior, relacionados com a necessidade de a igreja atribuir valor acrescentado ao sistema de ensino.

É neste sentido que protelamos para 2016, ano em que, segundo as nossas estimativas, teremos concluido os laboratórios, questão muito importante no processo de formação e preparação para o mercado de trabalho, assim como a fase de recrutamento de professores que serão submetidos a seminários para encarnarem os princípios que vão conduzir o ensino superior tocoísta. Com isso, queremos evitar a inclusão de elementos estranhos ao nosso processo que, provavelmente, venham a estrangular a busca por um ensino de excelência.

ANGOP: O instituto surge num contexto de proliferação de universidades e institutos superiores. O projecto tocoísta é apenas mais um ou pretende fazer diferença?

AN - Esta questão tem sido a nossa principal preeocupação. Temos trabalhado afincadamente todos os dias, recrutando profissionais do mais alto nível, quer administrativos, quer docentes. Estamos a criar uma equipa composta por angolanos e expatriados, ao mesmo tempo que criamos entidade promotora, um organismo representante da igreja junto ao Estado e ao Instituto Superior. Com isso, queremos evitar a intervenção directa da estrutura da igreja na gestão do projecto.

ANGOP: O surgimento da entidade promotora surge como precaução ao que ocorre agora na Universidade Metodista de Angola, onde um suposto desentendimento entre as direcções da igreja e da universidade levou a paralização das aulas?

AN - O que sei sobre a Universidade Metodista foi por intermédio dos órgãos de comunicação. Por isso, não gostava de falar muito sobre isso. Porém, quero dizer que a nossa tónica é a prudência. Tudo está a ser feito nesta base. É necessário avaliar os riscos futuros para, de forma antecipada, corrigirmos os problemas que forem surgindo, sem que, com isso, paralisem as aulas. Estamos empenhados na busca de excelência e, principalmente, queremos que a relação entre a igreja e o Instituto Superior seja a mais cordial. O país pode confiar neste projecto. Quero dar o meu voto de confiança e dizer que o Instituto vai fazer diferença no processo de ensino superior em Angola. Garanto.

ANGOP: Os membros da Igreja tocoísta vão gozar de privilégio ou estatuto diferenciado?

AN - Não vamos criar privilégios neste instituto. A qualquer candidato serão exigidas competências tradicionalmente exigidas aos candidatos ao ensino superior. A formação superior é coisa séria e não nos vamos compadecer com aqueles que não cumprirem com os requisitos para o ingresso ao instituto, nem que o mesmo seja filho do lider. Contudo, a direcção do instituto vai, por intermédio de um processo devidamente estruturado, atribuir bolsas de estudo a candidados que realmente não poderão suportar as propinas mensais, quer sejam membros da igreja quer não.

ANGOP: Paralelamente à edificação do Instituto Superior em Luanda, há o projecto para construção de uma cidade universitária na província do Uíge. Em que pé está este processo?

AN - A cidade universitária será implementada a médio prazo. Estamos a preparar todos os meios, pois a construção de uma cidade universitária é coisa séria. Oportunamente, vamos avançar mais dados sobre o assunto.

ANGOP: Geralmente, projectos do género não são muito baratos, ainda mais quando se quer destacar dos outros. Quanto à igreja investiu?

AN - (Risos) Embora não seja muito católico falar sobre o assunto, mas vamos a isso. Recorremos a vários caminhos para encontrarmos o dinheiro. Muita gente fala e ainda recentemente alguém me perguntava se tinha sido o Governo ou o Chefe de Estado a financiar estes projectos. Mas não foi. Até ao momento, não recebemos nenhum tostão por essa via para a construção do instituto, embora já tenhamos gasto mais de dez milhões de dólares norte-americanos.

ANGOP: E qual foi a origem dos mais de dez milhões de dólares aplicados na estrutura?

AN - Bem, temos batido as cabeças no sentido de se encontrar financiamento. Estamos a criar uma estrutura que se enquadre na arquitectura da igreja, sendo que a sede dela (da igreja) e o instituto partilham o mesmo recinto. Estamos a gastar o que podemos para perpetuar o símbolo da igreja e contribuir para o país, pois a nossa sede é em Angola.

ANGOP: Porquê que existe a ideia de que o dinheiro para execução dos projectos da igreja vem do Governo, conforme disse?

AN - Por se calhar partilharmos alguns projectos de cariz social e apoiar o Governo em questões como construção de escolas ou ajuda humanitária, após calamidades naturais, como aconteceu agora em Benguela. A nossa relação é boa e vamos continuar a trabalhar para fortificá-la ainda mais, pois existem pequenos aspectos que temos de ultrapassar. A Igreja Tocoísta e o seu líder têm no Governo um parceiro verdadeiro. As pessoas dizem que a igreja e o bispo foram comprados (…).

ANGOP: E foram mesmo?

AN - Claro que não! A nossa consciência não está à venda e nem sequer tem preço. O que existe é somente colaboração no sentido da edificação do nosso país. Para aconselhar o Governo, temos primeiro de ser amigos, criticando em fóruns próprios, não em hasta pública, como se faz ultimamente nas redes sociais. A relação entre a igreja e o Governo vai continuar, até porque o Presidente da República é uma pessoa afável em certas situações e nos ouve. Nós não recebemos dinheiro. Partilhamos e aproveitamos outras valências.

ANGOP: Como andam os projectos agro-pecuários da igreja, instalados no interior do país?

AN - Estamos empenhados nestes projectos, principalmente na reactivação da cooperativa 25 de Julho, que agora luta pela sua implementação de forma mais ampla. Temos fazendas, algumas cabeças de gado. Mas seria bom esclarecer que a intenção é ajudar as pessoas que vivem nos arredores destes projectos. Estamos também à busca de apoios fora do país para criarmos algumas cooperativas, onde os associados poderão obter alguns bens para a subsistência. Deste modo, estaríamos também a ajudar o Governo.

ANGOP: Assistimos regularmente a ataques de grupos armados que dizem operar em nome de uma religião e um deus. Enquanto líder religioso, que opinião tem sobre o fundamentalismo religioso?

AN - Este é um problema que tem a ver com o choque de civilizações. É um problema antigo que ressurge agora com mais agressividade. Eu, enquanto líder religioso e abordando um assunto tão sensivel quanto este, devo fazê-lo com muita responsabilidade. É necessário que se criem condições e métodos próprios para inibir certas tendências para o radicalismo religioso. Acima de tudo, é necessário promover diálogos entre as distintas crenças religiosas em Angola, reconhecendo que o país deixou de ser exclusivamente cristão. É necessário ser corajoso e criar laços e um ambiente diferente aos dos outros países. Mas isso faz-se com coragem, falando das coisas sem medo.

ANGOP: Defende a criação de um fórum de diálogo inter-religioso?

AN - É importante que cheguemos a este estágio. Já participei em vários encontros do género em Israel, e neles estiveram também muçulmanos e cristãos. Penso que podemos criar também este ambiente no nosso país. Já não se pode negar a existência do islão em Angola. Ele está entre nós e não podemos expulsá-lo. É necessário avaliar o assunto milimetricamente para destrinçarmos o normal do radical.

ANGOP: Quem deve dar o primeiro passo neste processo?

AN - Nós, a liderança religiosa, por sermos os anfitriões neste processo, e também o Governo. Temos de aderir a este espaço de conversa e, consequentemente, compreende-lo. Será neste espaço onde poderemos avaliar o assunto milimetricamente e destrinçarmos o normal do radical.

ANGOP: Enquanto líder religioso, que diagnóstico faz da sociedade angolana?

AN - É um assunto com o qual me preocupo e tento contribuir para trazer de volta aspectos que se perderam com o tempo. Quando se fala em resgate da moral e do civismo muita gente não percebe a carga semântica da palavra resgate. É algo em que devemos trabalhar profundamente. Nós, as igrejas, o Governo, a sociedade civil, as autoridades tradicionais, os meios de comunicação social, temos de nos empenhar bastante neste processo.

ANGOP: E como sair do discurso para as acções?

AN - Por intermédio de seminários e palestras. É igualmente necessário criar nos currículos escolares disciplinas que incutam às crianças e aos jovens o sentido do valor da vida e do próximo e porquê vivem com os outros e não sozinhos. Quando ensinarmos estes valores às crianças e jovens, então estaremos a criar condições para possuirmos os valores perdidos. Porém, se fizermos o contrário ao que disse, com programas depravadores na televisão, sem regulamentação aos conteúdos publicados nos órgãos de comunicação social, nunca vamos chegar à paz de espírito que tanto procuramos.

ANGOP: Em 2014, o senhor bispo demonstrou indignação quanto à despenalização do aborto. Tem a mesma postura quanto à homossexualidade?

AN - A nossa igreja estará aqui para fazer oposição radical a estas práticas. Caso algum ante-projecto sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo seja aprovado pela Assembleia Nacional ninguém vai nos pegar. Vamos afirmar em “bom-tom” a nossa indignação quanto a esta aberração. Caso uma lei satânica como esta seja aprovada, cá estaremos para fazer frente, sem medo, pois, com isto, a nossa moral está a ser ferida. Temos voz para protestar contra os deputados. É necessário entender que o casamento entre pessoas do mesmo sexo põe em risco a continuidade da raça humana.

ANGOP: Entrando mais para aspectos da Igreja, como anda a “saúde” dos Tocoístas?

AN – Estamos bem. Estamos presentes nas 18 províncias do país, nos municípios e comunas. Em termos gerais, estamos acima de 900 mil fiéis, um número que cresce diariamente. Angola, por ser a nossa sede, alberga cerca de 90 porcento dos fiéis espalhados nos mais de 20 países em que a Igreja Tocoísta está presente.

ANGOP: O senhor bispo tem visitado as comunidades no interior do país?

AN - Tenho. Notamos que a nível das comunas algumas congregações ainda não se desenvolvem do modo que queríamos. Por isso, estamos a preparar a juventude, com o auxílio da sabedoria dos mais velhos, para acabar com as assimetrias entre as cidades-sedes das províncias e os municípios. Há municípios onde o crescimento é favorável, assim como existem outros cujo desenvolvimento ainda não satisfaz, fruto, também, de alguma falta de visão dos dirigentes destas comunidades.

ANGOP: Desde 2000, altura em que assumiu a liderança da igreja, notam-se mudanças estruturantes, tanto do ponto de vista patrimonial, como organizacional. O que reserva a igreja nos próximos anos?

AN - Por ser obra de Deus, nos próximos dez, 15 anos, a Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, os Tocoístas, alcançará níveis de expansão e organização nunca vistos. No passado, os recursos humanos da igreja eram escassos, realidade diferente a actual, pois contamos agora com homens formados, graças ao Espírito Santo. Tendo em conta o facto de a igreja ser assumida, no futuro, por bispos, anciãos, pastores e outras categorias que existem na igreja formados e com vasta experiência no campo científico, estou certo de que nos próximos anos teremos uma igreja mais forte e visível. A igreja de hoje foi construída com sangue de pessoas mortas em nome desta causa, um factor que me impele a ser consistente neste trabalho.

ANGOP: A alternância de poder dentro da igreja é um assunto que preocupa o senhor bispo?

AN - A alternância é algo que deve ser feita enquanto estamos vivos, para ajudar a juventude a conduzir os destinos da igreja. Saber fazer as transições é um elemento importante que escapa tanto na gestão das igrejas como na vida política. Eu devo fazer a transição enquanto estiver vivo, acompanhando a vida da igreja com orações. Caso morra já, sem deixar alguém a quem confiar a igreja, podem ocorrer dispersões, confusões e divisões.

ANGOP: Perspectiva sua própria sucessão no próximo pleito?

AN - Penso todos os dias. Quando dobro os joelhos para orar, peço a Ele, que nunca me abandonou, que me oriente quando chegar o momento de convocar a direcção da igreja para anunciar o nome da pessoa que me vai substituir. Essa transição é muito importante. Se não nos preocuparmos com isso poderemos cair. Por isso, avalio as pessoas consoante o seu dom.

ANGOP: Da vida pessoal do senhor bispo quase nada se sabe. O que pode partilhar com seus seguidores?

AN - (Risos) É uma questão importante, já que o bispo não usa anel de casado. Muita gente pergunta sobre estas questões ligadas a minha vida privada. O bispo não pode ser bispo se não for casado. Sou casado civil e religiosamente. A bíblia diz que o bispo tem de ser marido de uma mulher, ter filhos disciplinados, em ordem e não causar escândalos. Tenho 49 anos, seis filhos, dois a terminar os cursos de medicina e arquitectura. Outros ainda por concluir e entrar para o ensino médio. É desta forma que podemos conduzir a igreja alheia. Se não tivermos filhos e a casa em ordem, não adianta pregar.

Via Angop

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