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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Ocupação de Mbânz’a Kôngo

Publicado por Muana Damba activado 3 Marzo 2014, 03:19am

Etiquetas: #História do Reino do Kongo

 

Por Patrício Cipriano Mampuya Batsikama

 

batsm.jpg

 

 

Jan Vansina avança (Vansina, 2010-V:648):

 

“Desde pelo menos 400 a.C. os agricultores falantes de línguas bantas ocidentais estavam instalados ao Norte e ao Sul do baixo Zaire, ali cultivando inhames, legumes e palmeiras. Entre os séculos II e V, tal povoamento foi reforçado pela chegada, pelo Leste, de comunidades falantes de língua bantas orientais. Essas comunidades cultivaram cereais e criavam bovinos onde a mosca tsé-tsé o permitia, principalmente em Angola. Antes dessa chegada, a metalurgia do ferro penetra na região a partir do ano 100, ou  talvez mais cedo. Por fim, a cultura da banana veio completar o sistema de produção, talvez no decorrer do século VI”.

 

Quando as populações ocuparam as regiões atuais de Mbânz’a Kôngo, duas instituições já estariam muito desenvolvidas, pois permitiram a união das populações que, como acabamos de ver, eram provenientes de diferentes regiões. A memória antropomorfizou em doze chefes ou hidromorfizou em doze nascentes de águas a “origem inseparável” dos Kôngo.

 

O número 12 – kûmi ye zôle, em kikôngo – indica dois aspetos:

 

1) congregação das linhagens na formação do país/nsi/mbuku, no sentido de Estado autónomo. Para justificá-lo, podemos partir da organização territorial (Batsîkama, 2011:39) e da lista dos heróis civilizadores (Batsîkama, 2010:344); 2). A expressão kumi ye zôle traduz o imaginário cosmogónico de um conjunto de famílias: kumi = dez, deriva de kûma, chegar ao destino e perseguir-se (kûmana).

 

Implica a ideia do limite, margem (kûmu). E zôle, deriva de yôla: conceber, engravidar, alcançar. O termo contém a ideia de ter o resultado de amor (zôla: amar) de dois géneros.13 A própria expressão kûmi ye zôle implicaria o objetivo dessa instalação: institucionalização da amizade/irmandade de famílias/tribos diferentes (Weekx, 1937: 126-127) que anteriormente perseguiam umas às outras. Como podemos observar, a primeira aceção engrena-se na segunda. O número 1214 indica a institucionalização da amizade de diferentes grupos sociais e não nos parece exclusivo aos habitantes de Mbânz’a Kôngo.

 

Mbânz’a Kôngo é tido como origem de todos os Kôngo não só pelo seu significado literal (capital do Kôngo), mas também porque o local terá testemunhado a institucionalização de amizade entre diferentes “grupos populacionais” oriundos de vários horizontes: foi

ali que se criou Kôngo/União. A memória local, a linguística histórica/comparada e a arqueologia apontam para três origens: as populações oriundas do Sul eram proto-Njila, os grupos populacionais vindos do Norte eram proto-bantu e finalmente, os oriundos deNordeste eram híbridos dos dois precedentes: proto-Njila e bantu.

 

Esta união terá sido efetivada pela cerimónia de “dia musunga” (Sousberghe, 1954:396). Na verdade, (i) sûnga-sûnga indica a grande facilidade de orientação e, entre os Kôngo, relaciona-se a quem for eleito como dirigente e aos conselhos que são dados e outrasinstruções para que o novo eleito saiba satisfatoriamente os caminhos; (ii) bisûnga é a memória15 que é preciso que o “eleito” tenha para nunca desfazer qualquer ñkângu/pacto: diz-se “a galinha esconde seus ovos de forma segura”.16 Aliás, compreende-se, também, o provérbio que diz “vo kâtula kisûngu kya mfûmu, ñkângu imwângana”17, ou seja, o eleito dos doze simbolizava o “desejo da união”. Será, também,por isso que o monarca era chamado Ñtôtela (Batsîkama, 2010:106): Unificador. As cerimónias de sûnga-sûnga faziam de todos “cunhados”, ñkwêzi em kikôngo, e que tem a sua presença em várias regiões onde sustentamos ter passados os fundadores do reino do Kôngo.

 

Nesta etapa, estará já definida a instituição da autoridade mfûmu e a instituição da democracia lûmbu, porque manterá a união através da diversidade e separação dos poderes. O termo kûmi, por um lado, certificaria isto. Por outro, as amostras linguísticas – em impressionantes concordâncias com os resultados arqueológicos – indicam dois aspetos: (i) o reino do Kôngo nasceria logo a seguir, quando a instituição de autoridade e da democracia alcançaram dos representantes de 144 tribos; (ii) que a época da sua fundação convergem com a Idade de Ferro Antiga Ocidental (os chifres de animais grossos a ser esculpidos, insígnias de poder em ferro: faca,ngônge (entre século II e VI da nossa Era).

 

No que se segue iremos estudar as instituições que acompanharam a fundação do reino do Kôngo que expõem abertamente a divisão dos poderes e o sistema do governo a quechamamos – sem mínimo exagero – de democracia.

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