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Portal da Damba e da História do Kongo

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Página de informação geral do Município da Damba e da história do Kongo


Mulheres rurais chefes de família

Publicado por Muana Damba activado 11 Marzo 2014, 12:29pm

Etiquetas: #Notícias do Uíge

Por António Capitão


 

Fotografia: António Capitão| Uíge

 

Todos os dias Joana Marcelina e a vizinha Margarida Mbumba apanham os táxis que fazem o percurso “lavra-lavra” que sai da cidade do Uíge até à ponte do rio Loge. Com banheiras e sacos à cabeça, catanas e enxadas nas mãos, as duas mulheres dão início a mais uma jornada de trabalho.

 

São elas que garantem o sustento da família, visto que o dinheiro que os maridos ganham nos “biscates” é pouco para satisfazer as necessidades familiares.


Joana Marcelina disse à reportagem do Jornal de Angola que na sua lavra, com dez hectares, cultiva mandioca, milho, abóbora, batata-doce, tomate e couve, produtos que servem para o consumo e comercialização no mercado da rotunda do Songo, no bairro Papelão.


“Enquanto aguardo que a mandioca e o milho fiquem criados e prontos para a colheita, a kizaka, a couve e o tomate têm permitido que diariamente tenha algum produto para vender e depois fico com dinheiro para comprar comida, roupa e material da escola para as crianças”, disse.


As duas camponesas têm vidas difíceis mas estão orgulhosas porque lá em casa pode faltar muita coisa, “mas há sempre que comer”. Agora estão animadas porque o Executivo vai reforçar as políticas para o desenvolvimento do mundo rural. Elas têm terra para trabalhar, mas precisam de apoios técnicos e crédito para aumentar as áreas de cultivo.
Fineza Carlos, 35 anos, nasceu e vive na aldeia Quitutu, onde a maior parte da população se dedica à agricultura. Mãe de cinco filhos, tem no trabalho do campo a fonte de sustento. Trabalha três lavras onde produz mandioca, milho, abóbora, pevide, banana, ginguba e quiabo.


Dos produtos que cultiva, reserva uma parte para o consumo e outra para comercializar. Revelou que com os lucros que tem obtido, comprou um terreno de 400 metros quadrados no bairro Quigima, na cidade do Uíge, onde pretende erguer uma casa para nos próximos tempo viver com a família.


“É chegado o momento de proporcionar aos meus filhos, um ambiente mais desenvolvido para que estejam enquadrados socialmente”, disse. Mas tem que ir todos os dias à aldeia onde nasceu e viveu todos estes anos, porque é lá que tem as lavras para trabalhar.
“São mais de três décadas a viver numa pequena aldeia onde falta quase tudo, desde os serviços de saúde, educação, energia e água potável. Para podermos ter o arroz, o peixe, o óleo alimentar é necessário muito trabalho e depois percorremos uma longa distância até à cidade para os adquirir”, contou.

Oleiras de Nzambi

Na aldeia Nzambi, a 25 quilómetros da cidade do Uíge, existe uma associação de mulheres que se dedica ao trabalho de olaria. As associadas têm nesta actividade a fonte de receitas para satisfação das suas necessidades. A coordenadora, Margarida Joni, disse que 30 mulheres fazem moringues, panelas, pratos, copos, bandejas e sangas de barro.


As peças que as associadas produzem são levadas para os mercados, feiras e outros pontos estratégicos para serem vendidas. Com esta actividade as mulheres da aldeia Nzambi têm conseguido melhorar as suas condições de vida na comunidade.


“Todas as mulheres que estão associadas vivem melhor do que aquelas que dependem apenas do campo. Repartimos o nosso dia-a-dia nas lavras e na olaria. Ajudamos os nossos maridos na construção de casas e financiamos a formação dos nossos filhos para que tenham uma vida melhor que as nossas”, disse Margarida Joni. Jorgita Luís faz parte das 30 mulheres que integram a Associação das Mulheres Oleiras de Nzambi. Sentada ao chão com um monte de argila ao lado e as suas ferramentas de trabalho, encontrámo-la a dar os últimos retoques numa panela de barro que nos próximos dia vai servir para confeccionar os deliciosos quitutes da terra. 


Mensalmente, disse, consegue produzir mais de 60 peças entre panelas de barro, moringues e sangas. Cada muringue é vendido ao preço de 500 kwanzas, a panela por 300 e os jarros variam de 500 a 1000 kwanzas. Com o dinheiro obtido já foi possível erguer uma casa maior onde vive com a filha.


As mulheres oleiras receberam recentemente chapas de zinco da Direcção Provincial da Assistência e Reinserção Social para erguerem um atelier na comunidade onde vão passar a expor e comercializar as suas peças. Nesta altura estão a fabricar os adobes para o início da obra.

Mulheres habilidosas

Mais de 200 mulheres estão agrupadas numa associação da aldeia do Culo, entre a cidade do Uíge e o Negage. As mulheres dedicam-se ao corte e costura. Fazem batas escolares, roupas de panos africanos, vassouras, bancos de bordão, quindas e fazem também bordados em tecidos. A Direcção Provincial da Assistência e Reinserção Social apoia estas trabalhadoras.


As roupas confeccionadas são encaminhadas para a Direcção Provincial da Assistência e Reinserção Social que se encarrega da comercialização e depois devolve o dinheiro à associação. A responsável pelo grupo, Adélia Jaime, disse que uma parte do dinheiro é utilizada na compra de bens alimentares, produtos de higiene, roupa usada e outros artigos de primeira necessidade. Depois a associação faz a sua distribuição pelas associadas.


Os benefícios que obtêm das actividades, referiu, não são suficientes. Por isso solicitaram ferramentas agrícolas e um tractor para se dedicarem à agricultura mecanizada para obterem mais rendimentos.


“Possuímos terras suficientes para produzirmos em grande escala e contribuirmos para o combate à pobreza na nossa comunidade e na província. Solicitamos também que seja montada uma moagem de mandioca para evitarmos o sofrimento nos pilões.


Lamentamos igualmente a ausência constante do enfermeiro no posto de saúde e a falta de medicamentos”, sublinhou Adélia Jaime. Ainda não estão a funcionar os chafarizes na aldeia, mas já está construído o sistema de captação e tratamento de água. Ninguém percebe por que razão a água não chega às torneiras. Adélia Jaime disse à nossa reportagem que há mais de um ano a aldeia não tem energia eléctrica. O gerador de corrente eléctrica que tinha sido instalado, avariou. Os responsáveis não fizeram a sua manutenção. São administradores mas ninguém sabe o que administram.

Tributo à mulher rural

No Uíge o maior número de mulheres vive no meio rural e a agricultura e o comércio informal são as suas principais actividades.


Nos mercados, elas garantem que à mesa nunca falte o funji, o feijão, o arroz, peixe seco ou fresco, a carne fresca ou fumada, ginguba, pevide, gergelim, couve e outros alimentos que compõem a gastronomia local.


No campo são as mulheres que produzem grande parte dos produtos agrícolas produzidos e comercializados na região e que têm sido revendidos noutros pontos do país. Pouco a pouco, as “comandantes” de muitas famílias mostram o que valem. “Para elas vai o nosso reconhecimento, pois são verdadeiras guerreiras”, disse Adélia Jaime.  

 

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